KATHARSIS
Quis ser pensamento, um dia
mas pensei, pensei…
e perdi-me no que queria
Sofri por ser nada
e o vento levou-me
Cheguei no abismo…tragou-me
Bebi o caldo do poço do fundo,
cuspi o ódio do mundo
Recuperei o fôlego
e subi à tona
Respirei muito,
vivi um pouco
e tornei a afundar.
Vi mais claro
Vi as cores
Deliciei-me,
nem queria ter ar
Quis ser o abismo
Quis ser o mundo
Quis ser o fundo
Quis ter as cores
agarrei-as com a força de quem dà à luz:
contrações, depressões pós-parto
líquido…ah!Mim?Nim!Oh, Tico!
Soltei-lhe,
grito.
Cortei meus laços,
e cordões
e umbigos
e cansaços
Dormi…
Sonhei…
Acordei para o mundo
E vivi!
Assim como flores,
pari perfumes
bebi orvalhos
murchei com o tempo
Regaram-me, renasci
virei casulo,
voei borboleta
encontrei céu.
Pousei em nuvens
respirei o absoluto
Surgi mais verde?
Cheguei azul
Luza, ah! Zul-zul-zul
Zum-zumbido
Mel de amora
amor em mel de abelhas
Ladrilhos frios de vida
branca, morte em placas
Sangue
de boi e cinzeiros…
Quando a tosse sêca seca
e a voz não fala, range
o grito é câncer!
e o karma é duro
e a carne é doura
e a cama é dura
Cadê meu sonho?
Onde, força, estás?
Está na lida.
Ou vive acesa.
Apagas com lágrimas
se nela choras
Chora não!
Choro mais…
Chora, então. Desabafa.
Soluço o fim.
Sequei o frio
Cobri o rosto
Deitei no colo
Pedi abrigo
E fui azul!